quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Se meu caderno falasse?

Em 2005 realizei meu estágio de magistério. Lembro que quando fui conversar com a diretora, solicitei uma 2 série! Com toda educação, ela me disse que não seria possível, pois a professora não aceitaria. Tudo certo, fiz meu estágio com uma 4 série e foi muito bom!
Na medida que fui conhecendo melhor a escola, meus colegas professores, fiquei sabendo que a professora da 2 série atuava há mais de 15 anos na mesma faixa etária e utilizava sempre o mesmo caderno/roteiro de atividades. O mais interessante foi uma das minhas crianças dizendo "Sôra, todo mundo faz os mesmos exercícios da Sôra ....., eu fiz e agora meu irmão está fazendo!". Achava aquilo um pouco estranho, era possível alguém utilizar as mesmas propostas por tanto tempo? Mas na época não tinha muita bagagem teórica para realizar reflexões mais profundas! Depois de um tempo, lembrando sobre ela, ficava pensando que talvez tivesse sido o jeito que ela"aprendeu a ser professora".
O texto de Fernando Becker " Modelos pedagógicos e modelos epistemológicos" mostra que é um pouco mais do que o jeito de aprender a ser professor, mas de uma concepção teórica que o professor tem sobre a forma com que se dá a relação ensino aprendizagem no sujeito e com o sujeito. Concepção esta que muitas vezes, infelizmente, o professor nem se dá conta que tem, mas que está impregnada em todas as suas práticas, na forma de agir, na forma de organizar a sala, de elaborar as propostas, dispor os móveis, tratar com as crianças, tudo revela a epistemologia que o professor tem sobre aquisição de conhecimento. No caso, verifico agora uma professora que tinha sua prática embasada em uma epistemologia empirista, onde acreditava que seus alunos nada sabiam, que tudo o que transmitia era o suficiente para ensinar sobre os conteúdos e que em 15 anos recebia todas as crianças como iguais (mesmo sendo tão diferentes).
Fernando Becker cita, no mínimo, umas duas vezes que mesmo sem saber, os professores agem de acordo com uma epistemologia sobre o conhecimento. Tendo este conhecimento agora, penso que isso deveria ser a matéria principal em qualquer curso formativo de professores, pois como disse, aquilo que eu acredito sobre a gênese e como se dá o desenvolvimento do conhecimento é o que vai nortear todo o meu agir docente. Fico pensando sobre mim, que teoria sustenta minha prática, estou agindo com coerência de acordo com que acredito? Acredito na epistemologia construtivista, onde o conhecimento se dá através da ação e da problematização das crianças sobre os assuntos, interesses, materiais, etc, onde o professor assume seu lugar realizando intervenções necessárias para possibilitar aprendizagens. Agora fico pensando... meus planejamentos, minhas propostas sustentam o que acredito? Se meu caderno falasse, qual epistemologia ele apresentaria e revelaria?


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