sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Por uma proposta pedagógica construída sobre o poder constitutivo e criador da Ação Humana

Se formos parar para observar e estudar sobre as crianças, cada faixa etária nos apresenta características e ações bem específicas. No berçário, tudo é estréia, um mundo todo colocado a disposição, onde tudo é novo e é preciso ser conhecido, experimentado, observado, explorado. Coloque uma caixa de brinquedos para que bebês ( 0 a 1 ano e 6 meses) brinquem! O que acontece? De repente, tudo está fora da caixa!Sim, eles exploram e investigam tudo o que é posto, devido a necessidade de desbravar o novo! Infelizmente, já ouvi colegas dizendo: amigo, não precisa retirar tudo da caixa, escolhe um e brinca! É preciso compreender que a aprendizagem numa perspectiva relacional se dá através da ação do sujeito sobre o objeto, porém é preciso ter bem definido que tipo de ação é esta. A ação que possibilita a aprendizagem, dá significado as coisas, possibilita a realização dos desejos humanos e suas necessidades. Assim, bebês necessitam agir sobre tudo o que está posto e precisam ter este direito garantido. Fernando Becker alerta que há a ação aprisionada: interação pautada no treinamento, monotonia da repetição e pela imposição autoritária.
Tenho uma filha de 1 ano, desde recém nascida tentamos possibilitar e garantir que suas necessidades de ação sejam garantidas. Nas fotos abaixo (com 6 meses), ela com um cesto, onde colocávamos vários objetos e as ações pegar, observar, explorar e abandonar se repetia até que o cesto ficasse vazio.











Neste dia, o mais interessante foi que depois de agir sobre tudo o que estava dentro do cesto, o próprio cesto virou um objeto de exploração.


Teve um outro dia, que ela encontrou o pacote de fraldas sobre o sofá, conseguiu pegar e logo já começou a explorar. Quando eu vi, meu impulso quase me levou a chamar a atenção dela, consegui me segurar, afinal ela não sabe ainda que as fraldas são caras e que pode danificar. Resolvi deixar ela explorar e comecei a observar e registrar! Depois fiquei pensando, será que não fui permissiva demais? Obviamente não vou deixar ela brincar sempre com o pacote de fraldas, depois que ela retirou e observou todas as fraldas conversei com ela, ela me ajudou a guardar e disse que ela tinha outros brinquedos adequados. Fiquei feliz, por que permiti que minha filha tivesse sua necessidade de investigação respeitada naquele momento. 




Entro uma vez por semana no berçário de minha escola e lá também tento garantir que os bebês possam agir conforme seus interesses e necessidades. Disponibilizamos diversos cestos pela sala, cada um com objetos diferentes e as interações são das mais diversas. A sala também conta com brinquedos motores onde podem subir, descer, etc.







 Possibilitar ações ricas para as crianças não é fácil, observo que os brinquedos pela sala, visto muitas vezes como "bagunça", a livre exploração, o fato de não estarem fazendo tudo igual ao mesmo tempo incomoda muitos colegas. Mas sei que preciso seguir com o que acredito e cada vez mais me respaldar teoricamente para fazer um trabalho de qualidade e de respeito à infância. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Se meu caderno falasse?

Em 2005 realizei meu estágio de magistério. Lembro que quando fui conversar com a diretora, solicitei uma 2 série! Com toda educação, ela me disse que não seria possível, pois a professora não aceitaria. Tudo certo, fiz meu estágio com uma 4 série e foi muito bom!
Na medida que fui conhecendo melhor a escola, meus colegas professores, fiquei sabendo que a professora da 2 série atuava há mais de 15 anos na mesma faixa etária e utilizava sempre o mesmo caderno/roteiro de atividades. O mais interessante foi uma das minhas crianças dizendo "Sôra, todo mundo faz os mesmos exercícios da Sôra ....., eu fiz e agora meu irmão está fazendo!". Achava aquilo um pouco estranho, era possível alguém utilizar as mesmas propostas por tanto tempo? Mas na época não tinha muita bagagem teórica para realizar reflexões mais profundas! Depois de um tempo, lembrando sobre ela, ficava pensando que talvez tivesse sido o jeito que ela"aprendeu a ser professora".
O texto de Fernando Becker " Modelos pedagógicos e modelos epistemológicos" mostra que é um pouco mais do que o jeito de aprender a ser professor, mas de uma concepção teórica que o professor tem sobre a forma com que se dá a relação ensino aprendizagem no sujeito e com o sujeito. Concepção esta que muitas vezes, infelizmente, o professor nem se dá conta que tem, mas que está impregnada em todas as suas práticas, na forma de agir, na forma de organizar a sala, de elaborar as propostas, dispor os móveis, tratar com as crianças, tudo revela a epistemologia que o professor tem sobre aquisição de conhecimento. No caso, verifico agora uma professora que tinha sua prática embasada em uma epistemologia empirista, onde acreditava que seus alunos nada sabiam, que tudo o que transmitia era o suficiente para ensinar sobre os conteúdos e que em 15 anos recebia todas as crianças como iguais (mesmo sendo tão diferentes).
Fernando Becker cita, no mínimo, umas duas vezes que mesmo sem saber, os professores agem de acordo com uma epistemologia sobre o conhecimento. Tendo este conhecimento agora, penso que isso deveria ser a matéria principal em qualquer curso formativo de professores, pois como disse, aquilo que eu acredito sobre a gênese e como se dá o desenvolvimento do conhecimento é o que vai nortear todo o meu agir docente. Fico pensando sobre mim, que teoria sustenta minha prática, estou agindo com coerência de acordo com que acredito? Acredito na epistemologia construtivista, onde o conhecimento se dá através da ação e da problematização das crianças sobre os assuntos, interesses, materiais, etc, onde o professor assume seu lugar realizando intervenções necessárias para possibilitar aprendizagens. Agora fico pensando... meus planejamentos, minhas propostas sustentam o que acredito? Se meu caderno falasse, qual epistemologia ele apresentaria e revelaria?